quarta-feira, 13 de junho de 2012

O COMBOIO DO CARVÃO MINERAL DE RIO MAIOR

PONTE DO CELEIRO, A ALDEIA DE QUE VOS FALO, A ALDEIA ONDE NASCI, AQUI COMEÇA, PELA PLACA COLOCADA DEPOIS DA PASSAGEM DA PONTE, E ERA AQUI PERTO TAMBÉM QUE ESTAVA A CASA DO GUARDA DA PASSAGEM DE NÍVEL !!!


ESTA PLACA INDICA UMA ESTRADA LATERAL À RIBEIRA DA ASSECA, QUE PASSA AQUI NA PONTE DO CELEIRO E QUE NOS DIZ TER PASSADO ALI A LINHA FÉRREA DE VOS FALO!!!
ESTRADA DO CAMINHO DE FERRO!!!

A PONTE SOBRE A RIBEIRA DA  ASSECA, JUNTO DO SITIO DA LINHA FÉRREA, E QUE PENSO TER DADO O NOME A ESTA ALDEIA, POIS AQUI LOGO JUNTO EXISTIRIAM UNS CELEIROS, EM TEMPOS IDOS!!!
LOGO NA SAÍDA DA PONTE O BRASÃO OU SÍMBOLO DA FREGUESIA DE S. NICOLAU DE SANTARÉM, À QUAL JÁ PERTENCE A PARTIR DO LOCAL, CIDADE QUE FICA A CERCA DE 10 KM  
DO LADO DE CÁ PERTENCE À JUNTA DE FREGUESIA DA POVOA DA ISENTA!!!



O COMBOIO DO CARVÃO MINERAL


Ali, na Ponte do Celeiro, aldeia pequena e muito dispersa, onde cada casa era e tinha sido construída, aqui, ali, além, em pequenos ou maiores terrenos, a que chamavam a fazenda, entre vales, montes, e cabeços, onde o vizinho mais próximo poderia morar a cinquenta, cem, quinhentos, ou mil metros.



Ali passa uma estrada municipal, que liga também, Santarém a Rio Maior, contudo na época dos anos cinquenta, em que estou a centrar esta história, onde eram pouquíssimos os carros particulares, passavam as carreiras do Vinagre, com horários fixos, as grandes camionetas de carga, que transportavam a pedra das muitas pedreiras existentes na Freguesia de Almoster, algumas motos, e a maioria do tráfego era de bicicletas, pois era o transporte para os homens tido como mais acessível.


Muito interessante na época, as mulheres da aldeia, até das bicicletas tinham medo, era o medo de serem atropeladas, o que na verdade poderia acontecer, se não houvesse os devidos cuidados.

Todos os rapazes novos da época, iam aprender um ofício, uma profissão, o povo não estudava, trabalhava, a equivalência de um canudo era aprender com os mestres a arte de um trabalho, até se dizia que um bom mecânico, carpinteiro, pedreiro, sapateiro, calceteiro, padeiro, que exercesse bem a sua profissão, era um bom artista.

Onde havia mais trabalho, mais mestres, oficinas, era sem dúvida na cidade, então era ver os rapazes todas as manhãs, fazendo corridas de bicicletas até Santarém, e a Ponte do Celeiro era a meio caminho, para além de ficar já no percurso, num final de algumas descidas até à ponte, que os ciclistas mais radicais aproveitavam para quase voar, parecendo pássaros descendo as ladeiras, em cima das bicicletas.

Até os dias de hoje, as centenas ou milhares de pessoas que passam na sua movimentação diária, não conhecem a aldeia da Ponte do Celeiro.

Isto porque, na beira da estrada 365, poucas pessoas fizeram a sua casa, apenas meia dúzia de pessoas assim o fizeram, o que leva a querer que o lugar é só aquilo que se vê, não o sendo na realidade, embora seja sem dúvida uma aldeia pouca populacional.

Nos anos cinquenta, ainda se fazia a extração de carvão mineral das minas de Rio Maior, assim a linha do comboio p
or onde eram transportados os vagões de carvão, desde a mina da sua extração - até à Linha do Norte, aos caminhos de ferro que ficam no Vale de Santarém, ou melhor, num cais de embarque perto da Ponte da Asseca,  - passava ali na Ponte do Celeiro, ao início e fim do dia, e aí vivia uma família que eram os guardas da linha, que levantavam a bandeirinha na passagem do comboio.

O comboio fazia-se anunciar com um estrondoso e sonoro apito rouco, que ecoava pelos vales, chegando até aos mais altos cabeços, e toda a gente o ouvia.

Havia ali um costume entre as mulheres da aldeia, algumas iam para a linha apanhar as bolas do carvão, que caiam dos vagões pelo caminho, ficando pouco a pouco espalhadas ao longo da linha, era para se aquecerem no Inverno, e para fazer a comida, por vezes até levavam as crianças, que iam de boa vontade, não havia a exploração infantil, havia sim, o incutir das responsabilidades da vida, das suas necessidades, e como se dizia na gíria popular: o trabalho do menino é pouco, mas quem o perde é louco.

Assim pensando e agindo, lá ia um grupo de mulheres algumas crianças, umas sacas debaixo do braço, e um sachinho para descavar na terra, algumas bolas que se iam enterrando, pouco a pouco, iam juntando um talego que pudessem carregar na cabeça de volta até casa, já que aquele carvão era bem mais pesado do que o carvão de madeira ardida.

Quando se ouvia o comboio todo o grupo se afastava da linha, não fosse o diabo tecê-las, depois conseguido o objetivo do grupo lá voltavam a subir até ao cabeço de Almodolim, local onde morava aquele grupo de apanhadoras de carvão vegetal, uma das suas fontes de energia, para algumas pessoas fazerem a comida ou porem a arder na braseira.

Para a braseira qualquer pessoa saberia colocar e acender, e pensarão agora, “mas esse carvão é tóxico”, seria, na verdade, mas as casas na aldeia nos anos cinquenta, não eram forradas, eram telha vã como se dizia, se houvesse numa casa de família uma ou duas casas forradas a madeira, seria só o quarto, ou a casa de fora como se dizia, e isso eram divisões onde só se ia para se deitarem ou passarem, uma vez por dia, as braseiras ficavam pelas cozinhas, onde se fazia o serão.

Para fazer a comida, tinham inventado um género de fogão muito próprio que nunca vi em outra utilização, seria por exemplo uma lata de dez ou quinze litros, preenchida com barro por dentro, todo na sua volta, deixando um largo buraco no meio, e até ao cimo da lata, com uma abertura lateral em baixo, tipo uma boca de forno.

Era por essa boca que se acendia o carvão, e sairiam as cinzas, carvão esse, que era colocado dentro do espaço redondo no meio, uma vez já a arder, e em cima do carvão incandescente, que se via a arder na boca da lata, ou do fogareiro de carvão como lhe chamavam, colocava-se a panela para cozinhar a sopa, a tomatada, as couves com batatas e bacalhau, se houvesse, ou até o café de mistura fervido na cafeteira, e acompanhante, ou base de qualquer pequeno almoço.

Este era um comboio com história, para além do minério tem ainda algo mais para acrescentar, não tão interessante quanto a apanha do carvão que servia como um bem de ajuda familiar, mas outra ligação a esta aldeia ficou registada por largos anos, bem menos interessante.

Uma das residentes naturais da Ponte do Celeiro era a tia Helena, uma velhinha já muito curvadinha, agarrada a um pauzinho, que a acompanhava sempre, da casa onde vivia com o filho e mais familiares chegados, na difícil vida dos anos cinquenta, os velhinhos não tinham centros de dia, não tinham lares de idosos, e cada um vivia como podia com o pouco que todas as famílias tinham.

A tia Helena gostava ainda de cuidar da horta da família, e enquanto podia andar, ainda que muitas já fossem as suas dificuldades, não deixava de ir, cultivar, regar, arrancar ervas daninhas, e até apanhar os legumes que dentro das suas possibilidades, levaria até casa.

Era assim regularmente e era assim que lá passava uma grande parte do seu dia, fazendo com as suas poucas posses, lentamente, o que seria preciso para ter onde apanhar as suas verduras, a grande base para o seu sustento, lembrando ainda que, na época não havia reformas nem subsídios, nem ajudas alimentares para famílias carenciadas, e nas aldeias muitas pessoas viviam sem dinheiro, comendo apenas o que a terra criava.

Talvez por isso mesmo, talvez porque já era difícil carregar o fardo pesado dos anos, para a sua estrutura física, talvez porque já precisava mais de ter quem olhasse e cuidasse de si própria, mais ainda, do que ela já sem forças, ter de cuidar ainda dos outros, certo é que, a tia Helena encontrou uma solução para todos os males da vida.
Possivelmente, seria uma situação já muito pensada por ela, a solução estava à vista, e era fácil para ela, de a concretizar.

Num desses dia em que saiu de casa para a horta, nada faria prever o que lhe ia na cabeça, tudo estaria certo, o caminho para a horta, a conversa com quem se cruzou pelo caminho, até o seu trabalho normal da rega da horta estava perfeito, mas a hora estava a chegar, o comboio ia passar, viria carregado, de Rio Maior para a Ponte de Asseca, como de costume.

A tia Helena não tinha relógio, mas sabia pela altura do sol, quando as sombras iam chegando no sítio mais ou menos certo, comandadas pelo sol - eram horas do comboio ir chegando.

Ela estaria atenta, estava já tudo programado na sua cabeça, os seus olhos cansados já teriam olhado as sombras que avançavam, tantas vezes nessa tarde, ao longe, ecoando pelos vales entre montes sobranceiros, alguém ouviria o comboio, a tia Helena também o ouviu, desceu até à linha, o bater nos carris, mesmo na sua pouca velocidade, já diria que estava perto.

Na saída de uma curva, o comboio chiou, travou, tentou parar, mas não conseguiu no tempo certo, na distância precisa e necessária, a tia Helena estava lá, deitada, atravessando-se como se fosse uma chulipa, mas na versão contrária, não suportava o carril, era o carril que apoiava o seu pescoço, tudo terminou ali.

PAZ À TIA HELENA!!!

A vida tem de tudo, o lado simples e romântico, também o duro, triste ou macabro, mas é vida, e a vida tem morte.


Por mais alguns anos o comboio continuou a passar, enquanto fez sentido a extração do tal carvão, depois tudo acabou, o guarda da passagem de nível que levantava a bandeirinha, quando o comboio passava, foi-se embora, como tudo começa, tudo acaba, seja lá quando for, a minha história também acaba aqui, mas ainda tenho de dizer que naqueles últimos anos, o comboio, ali, ficou com um novo nome, e peço desculpa pela dureza da escrita em linguagem da aldeia: o 'mata-velhas'. 

LÍDIA FRADE


6 comentários:

  1. Um prazer esta leitura! Obrigada pela partilha.

    De facto, o Portugal de hoje está muito difrente. Tão exigente em certas coisas e tão permissivo noutras.

    Um beijo

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    1. LÍDIA MUITO OBRIGADO PELA SUA VISITA, MUITO OBRIGADO PELA SUA LEITURA ATENTA E OPINIÃO DE GRANDE VALOR PARA MIM!!!

      VOLTE SEMPRE!!!
      1 BEIJO LÍDIA

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  2. Os tempos são outros e na actualidade o gaz substituiu o carvão.
    Um bom relato da vida na aldeia que nos fez recuar muitos anos.
    Até á pouco tempo os ferreiros usavam o carvão vegetal.
    Os comboios também vão desaparecendo.
    Para cada locomotiva há um gestor que é bem pago. No final do mês as despesas são muitas e os sucessivos governos vão nomeando mais gestores disto e daquilo - máquina partidária -

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    1. BOM DIA LUÍS!!!
      AGRADEÇO A SUA VISITA, ASSIM COMO A SUA LEITURA ATENTA E COMENTADA!!!
      FICA PARA NÓS A PARTE DE DEIXAR ESCRITO PELAS NOSSAS LEMBRANÇAS, ESTAS PEQUENAS HISTÓRIAS QUE VÃO ENRIQUECER QUEM ESTIVER COM O TEMPO, DISPOSTO A LER, A GUARDAR.

      EU VOU PASSANDO AOS MEUS NETOS!!!
      QUE JÁ VÃO ESTANDO INTERESSADOS!!!

      1 BEIJO LÍDIA

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  3. Olá Lídia,
    Chegámos ao seu blog devido ao facto de estarmos interessados em assuntos relacionados com o curso do rio Maior/vala de Azambuja entre a Ponte de Asseca e a Ponte de Celeiro. Foi assim que viemos dar ao seu blog, ao qual fizemos uma visita breve, mas que nos deu a possibilidade de ver e ler o que nele tem publicado de textos (inclusive a sua poesia) e as suas boas fotos e muita informação de interesse. Temos em comum essa particularidade de o rio Maior/vala passar junto às nossas terras (Ponte de Celeiro e Vale de Santarém) e como somos o Movimento Ecologista do Vale de Santarém (estamos no facebook e temos um blog) a poluição do rio é, entre outros assuntos, um dos mais importantes para nós. Os nossos parabéns, votos de que continue e vamos voltar a visitar o seu blog. Agradecemos.

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    1. Agradeço muito a vossa visita, tal como o vossa agradável comentário.
      Como Ribatejana gosto de mostrar sempre que posso o que me está por perto e sempre no coração.
      Eu nasci na Ponte do Celeiro, gosto de contar as histórias, de deixar os meus conhecimentos e lembranças, de fotografar sempre que posso os caminhos do Ribatejo por onde passo por acaso ou por onde viajo no meu pouco tempo livre, pois trabalho e vivo em Lisboa.

      Se vos poder ajudar ou ser útil em alguma coisa aqui estou sempre á disposição.

      Lídia Frade

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